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Em 2019, a V FELIZS traz como linguagem norteadora o Teatro e lança como reflexão a frase "Meu Corpo, Minha Marca No Mundo”. Para fomentar esta reflexão, trazemos o texto “O Corpo Político", de Ângelo Cavalcante.

 

O CORPO POLÍTICO, de Ângelo cavalcante

Corpos não são abstrações.

Não são hipóteses ou possibilidades imagéticas; ao contrário, bem ao contrário, todo corpo é complexa totalidade material circunscrita a relações sociais, políticas e econômicas objetivas.

Um corpo tem estreita relação com o espaço, com o território e com tudo o que apetece nesse mesmo território. 

Desse modo, todo corpo é corpo político; é agente e sujeito da política. No mesmo instante em que faz política, também se sujeita a política.

Como "locus" privilegiado do prazer o corpo realiza esse mesmo prazer com tal e qual intensidade que respeita às próprias contingências de seu tempo. 

Conforme cita a argentina Beatriz Sarlo, "um corpo não mente". Um corpo faminto sempre diz a verdade; um corpo doente não esconde seu drama; um corpo torturado, seviciado, jamais se nega. 

Desta maneira, um tempo de perseguição, carência e repressão se impregna sutil ou escancaradamente, no corpo humano; produz condicionamentos, equivalências e correspondências nas formas físicas humanas. Em seus detalhes, em suas minúcias e reentrâncias.

Corpos sob ditaduras são corpos desconfiados, tensos, endurecidos por riscos e ameaças; são, deste modo, estruturas políticas subsumidas, rijas, punitivas e não dialógicas.

Não há corpo sem voz, sem fala, sem linguagem. Pois, reparem, se somos mais de duzentos milhões de brasileiros, eis que temos mais de duzentos milhões de linguagens corporais; únicas, singulares, específicas e fundamentalmente importantes. 

Corpos que não dialogam são corpos domados e dominados por ditaduras; por sinal, a uniformização dos corpos, dos seus gestos, movimentos e intenções é marca definitiva e indelével de ditaduras. 

Por que, cargas d'água, em ditaduras, reuniões ou congressos são terminantemente proibidos? 

Ora, pois... Porque corpos politizados e que se encontram interagem, se identificam, se liberam, rompem com estruturas e formas convencionais de controle e tal fenômeno é absolutamente contagiante e transformador.

Romualdo Rosário da Costa, o mestre Moa do Katendê, com glamoroso turbante gingava livre e hipnotizante na cadência fina e harmoniosa dos seus atabaques e charangas. 

Corpos livres, musicais e dançantes possuem, trazem em si, teses políticas. 

Mestre Moa, após ter declarado voto em Fernando Haddad, fora cruelmente assassinado com doze facadas em oito de outubro de 2018, na cidade de Salvador, por um eleitor fanático de Jair Bolsonaro. 

Um tipo ordinário, sem dança, sem movimento singular, com corpo controlado, burocratizado e que, conforme canta Caetano Veloso, "acha feio o que não é espelho".

Um cacique seminu e que é morto a facadas no oeste do Amapá não é só mais um assassinato de um tipo humano e que liberou seu corpo aos pulsares da vida e da natureza; é evidente sinal de um trágico tempo onde os corpos dos que lutam e resistem estão sendo escancaradamente, caçados. 

Por sinal, por que a ditadura de Bolsonaro persegue tanto gays, quilombolas, indígenas, camponeses e lutadores dos movimentos sociais? Que relações estes segmentos estabelecem com os próprios corpos? Por que tais corpos resistem a prisões, aos encarceramentos e às investidas das PM's? 

Ora, porque corpos são sensibilidades políticas e que só funcionam em liberdade.

O corpo está no tempo porque o tempo está no corpo; e este tempo se expressa, revela não por sinais ou marcas físicas ou faciais mas, sobretudo, por ideias.

Ideias envelhecem corpos; danificam seu acervo de movimentos, afundam corpos em depressões, desgostos, tristezas. 

Ideias velhas, fora do espaço-tempo, travam corpos, retiram possibilidades de gozo e prazer. É a ideia, seu exercício prático e material aquilo que mortifica ou não, o corpo humano.

Por fim, não é a boca que sorri... É o corpo! Não são os olhos que choram... O corpo chora!

Por isso... Ame, ame-se, ame seu corpo e libere-o! Venha lutar...

 

Ângelo Cavalcante é economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.